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MELHOR IDADE
Como manter a memória saudável
O homem nasce com aproximadamente
100 bilhões de neurônios. Mas onde vai parar esse batalhão de
células quando mais precisamos delas? Não é raro tentar acessar a
memória em vão na hora de lembrar o item que falta na compra do
supermercado, ao passar o número do celular recém-comprado para
alguém ou até mesmo para recordar o que comemos no almoço. Com a
avalanche de informações que recebemos diariamente, é impossível
se lembrar de tudo. Mas como reter aquilo que é essencial?
Não espere saídas milagrosas, o segredo é botar a cabeça para
funcionar. "Quanto mais usamos a memória, mais a preservamos",
afirma o neurologista Wagner Gattaz, um dos coordenadores do
recém-aberto Centro de Estudos de Distúrbios da Memória, do
hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O centro atende pessoas que
sofrem distúrbios graves de memória e também aquelas que apenas
querem fazer um check-up para prever problemas futuros.
"Qualquer um pode fazer esse check-up, mas ele somente faz sentido
para pessoas que sentiram uma piora de seu rendimento intelectual,
como dificuldade de atenção e concentração e esquecimentos
freqüentes, por exemplo. Muita gente quer saber se isso tem a ver
com a idade ou se é algum distúrbio", diz Gattaz. Segundo ele, é
natural que a memória fraqueje quando se chega a uma idade mais
avançada.
"Antes, as pessoas encaravam com mais normalidade a perda de
memória decorrente da idade. Hoje, da mesma forma que há uma
frenética busca pela juventude do corpo, há também uma procura
preventiva por exercícios para conservar a mente", afirma a
pesquisadora Ana Alvarez, que oferece treinamento para pessoas que
querem desenvolver agilidade mental -não só para prevenção, mas
também para conseguir resultados imediatos.
É o caso da administradora de empresa Simone Carrera, 32, que
procurou ajuda para se destacar no âmbito profissional. "Tenho
objetivos que dependem da minha memória. Estudo inglês e tenho
intenção de aprender mais duas línguas. A gente convive com vários
eventos simultâneos. Temos de ter uma memória e uma atenção
programadas", afirma Simone, que se sentia insegura só de pensar
em encontrar alguém conhecido e não lembrar o nome ou em esquecer
um número em uma reunião importante de trabalho.
Além de uma agenda organizada e um palmtop, a
administradora conta ainda com vários tipos de "post-it"
colados no carro, no criado-mudo, na porta de casa e no espelho do
banheiro, só para garantir. Segundo a consultora Alvarez - que
também é autora dos livros "Deu Branco" (ed. Best Seller) e
"Cuide de sua Memória" (ed. Nova Cultural)-, esse tipo de
ferramenta externa para ajudar a desocupar a memória dos assuntos
menores de fato ajuda. Diz também que não há um método ideal, cada
pessoa pode criar o seu.
O administrador aposentado Antonio Andrades, 54, inventou o seu
jeito. Ele espalha bilhetes pelos degraus da escada de sua casa
para lembrar-se de seus compromissos sempre que passa por ali.
Mas, segundo ele, o grande segredo para manter a memória em dia é
ter uma vida ativa. "Procuro fazer coisas que exigem atenção.
Trabalho como voluntário fazendo contabilidade para duas escolas,
estudo espanhol e estou sempre lendo. Sei que isso é importante",
afirma Andrades.
No entanto, o excesso de atividade também tem seus reveses.
Durante o treino na academia, a simples passagem de um aparelho
para o outro bastava para que a comerciante aposentada Heloísa
Alex, 60, esquecesse os pesos da sua série de exercícios. A falta
de concentração também atrapalhava suas atividades mais habituais,
como a leitura. Ao procurar ajuda, Heloísa descobriu que seus
esquecimentos não estavam relacionados com a idade, mas com o
estresse.
"Muitas pessoas chegam ao consultório achando que estão com algum
distúrbio de memória, mas na verdade estão com depressão, sem
motivação ou ansiosas demais", afirma a psicóloga Valeria Bellini
Lasca, mestre em gerontologia pela Unicamp, que desenvolveu estudo
sobre treinamento de memória.
De acordo com a psicóloga, o estresse, a ansiedade e a falta de
motivação podem prejudicar o funcionamento da memória. "Com
sobrecarga de trabalho, de emoções ou de informações, chega uma
hora em que o organismo não responde mais", afirma a psicóloga.
Para um dos maiores pesquisadores do tema, o neurocientista
argentino naturalizado brasileiro Ivan Izquierdo, a leitura
continua sendo o melhor meio para desenvolver a memória, pois é a
única atividade que estimula todas as suas formas ao mesmo tempo.
"No momento em que a pessoa terminou de ler a palavra "árvore", em
centésimos de segundo passam pela sua mente todas as árvores que
ela conheceu na vida. Tudo isso inconscientemente", afirma o
cientista, que lançou neste ano os livros "Questões sobre
Memória" (ed. Unisinos) e "A Arte de Esquecer - Cérebro,
Memória e Esquecimento" (ed. Vieira & Lent).
Segundo ele, já foi comprovado que pessoas que têm uma constante
atividade intelectual têm menor chance de apresentar distúrbios
como o mal de Azheimer. "Mesmo nos portadores, a manifestação da
doença demora mais e, quando aparece, tem menor gravidade",
afirma.
Não é à toa que a deusa que representa a memória na mitologia
grega, Mnemosine, gerou com Zeus as musas responsáveis pela
inspiração de poetas, literatos e filósofos.
Fonte: Folha de São Paulo

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